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Cara Distância:

Imagem: https://pixabay.com/pt/carta-caligrafia-fam%C3%ADlia-letras-447577/
Querida, hoje posso te chamar assim, não te odeio mais. Por longos meses sofri pensando em você, amaldiçoando sua presença em minha vida. Acreditava ser a razão dos meus problemas, o verme que corroía meu amor. E enquanto usava meu tempo lhe odiando não percebia suas qualidades.
Naquele gélido junho você finalmente se foi, no mesmo momento em que aquele sorriso se aproximava de mim no aeroporto lotado. Sua prima, a Saudade, também fugiu sem deixar nem um bilhete de adeus. A felicidade parecia ter vindo para ficar, e a esperança de um amor tranquilo acalentava meu coração. Mas era apenas um véu de ilusão me impedindo de ver a realidade.
Em poucos dias percebi que você não era tão má assim. Sem você precisei encarar manias, vícios e silêncios constrangedores. As palavras amorosas ditas pela internet se metamorfosearam em piadas grosseiras, leves repreensões e comentários maldosos. Mas não parou nesse estágio e logo vieram as ofensas e aniquilamento do respeito mútuo. Tornei-me amarga, fria, desconfiada e extremamente triste. O amor se transformara em um monstro cruel e faminto, destruindo qualquer sinal de felicidade.
Então ontem, após uma noite particularmente difícil, resolvi partir. Não olhei para trás. Nada levei e nada deixei. O desespero inicial deu lugar a um delicioso sentimento de liberdade e muito amor-próprio. Agora escrevo essas linhas para lhe pedir perdão. Algumas vezes, amiga Distância, você é indispensável.

*Post para o projeto Arte&Prosa (para saber mais, clique aqui)

Comentários

  1. Que interessante, Bruna! Não tinha pensado nisso...muito bem escrito
    Bjs

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  2. Que texto forte e reflexivo. Super envolvente. Parabéns! Espero ler muito mais textos seus. bj grande
    www.pilateandosonhos.com

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