O garoto

17:21

Concentrada na leitura de uma revista ouvi vagamente seu apelo. “Mais um pedinte”, pensei. Como sou contra dar esmolas, já ensaiava minha recusa, talvez sem nem tirar os olhos do texto que estava lendo. Ele veio até mim, mas seu odor chegou antes, um cheiro forte de descuido, mal definido. “Moça, tô com fome” . Não era bem um pedido, era uma constatação. Levantei a cabeça, olhei bem para aquele garoto diante de mim. Era um rapaz lindo, com um rosto angelical, sem os comuns traços de malícia encontrados nos meninos de rua. Suas roupas estavam rasgadas e imundas, seu corpo e rosto estavam cobertos de poeira e lama Seus olhos castanho-claros (cor de mel, como falam) diziam muito mais que a voz fraca saindo de sua boca, pediam socorro. Contra todas as minhas regrinhas frias, “Esmolas não ajudam em nada”, “A culpa é do Estado”, vasculhei minha bolsa à procura de algo. Queria dar-lhe comida, abrigo, saber sua história e conhecer sua família. Dizer o quanto era um menino bonito, como merecia pelo menos um mundo de maravilhas. Nada disso fiz. Catei todas as moedas da minha bolsa e estendi a irrisória quantia, me odiando. Olhei bem dentro de seus olhos (de mel, são doces!) e tentei passar com um olhar minhas desculpas. Desculpa por ser tão egoísta e medrosa, reclamando como uma garota mimada na minha redoma confortável!Não sei se ele entendeu minha mensagem, mas eu precisava passá-la de alguma forma.
Isso aconteceu há mais de um mês, e vez ou outra ainda penso nesse garoto. Como ele estará? Vivo, morto, ferido, feliz, faminto? Que tipo de gente passou por seu caminho, que escolhas lhe foram apresentadas? Será que ele cansou de pedir por comida e escolheu o crime, uma alternativa mais rápida, mas nem por isso mais fácil? Provavelmente não se lembra de mim, mas eu não o esqueci.

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1 comentários

  1. o nosso mundo está cada vez mais cruel com aqueles que vivem à margem. somos todos vítimas e também responsáveis pelo que acontece. creio que esse sentimento de angústia que ainda vive em você é que a faz diferente daqueles que olham e nada sentem (e nada fazem). não se deixe endurecer. é a sua sensibilidade que será a força motriz para as mudanças importantes. mudanças que todos nós precisamos fazer com as próprias mãos.

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