A primeira manhã

13:16


Houve o tempo em que Lúcio acordava quando a maioria dos mortais se recolhiam em seus leitos. Mas nos últimos cem anos as noites tornaram-se cópias dos dias, e as ruas ainda estavam repletas de gente quando os últimos raios crepusculares tingiam o firmamento. Lúcio considerava tal invasão de luzes, sons e cores na rotina noturna uma verdadeira heresia. O ciclo da vida girava cada vez mais rápido, a habilidade autodestrutiva dos humanos atingia seu clímax para dar lugar a uma nova ordem de antigos erros. Já presenciara esse processo diversas vezes, mas agora sentia-se exausto demais para suportar esse espetáculo.
Essas breves reflexões duraram poucos minutos...ou segundos? Tempo suficiente para o céu enegrecer por completo enquanto todas as luzes dos postes eram acesas. Lúcio sentia fome de vida, sua natureza rebelde exigia ser saciada e não admitia demora. Mas ele não se satisfaria com qualquer sangue, era o gosto Dela que ansiava. Vestiu uma bata branca com detalhes dourados, uma calça bege e calçou uma simples sandália de couro. A escolha do traje o fez rir ao pensar em como os escritores relatam criaturas como ele. Enquanto muitos temiam o escuro, o perigo escondia-se em alvas vestes.
Ao sair do luxuoso hotel Lúcio se lembrava dos diferentes abrigos que tivera: O pobre catre do orfanato administrado por jesuítas rigorosos, os mosteiros pelos quais passou quando ainda era um noviço cuja fascinação pelo pecado superava o temor divino, as confortáveis instalações da corte no Rio de Janeiro, após uma série de artimanhas facilitadas pelos seus novos poderes; palacetes de ricas viúvas; quartos de pousadas, hotéis, motéis pelo Brasil e mundo afora. Em cada viagem um nome impresso no documento, mas sempre o mesmo rosto incólume aos efeitos do tempo. E, contrariando um dos maiores clichês referentes a sua espécie, nenhum esquife sentiu o peso de seu corpo.
A vida noturna em Salvador era agitada, principalmente naquele bairro boêmio. A cidade unia o moderno com o antigo, como sua própria vida. O álcool consumido em nos bares anestesiava decepções. “Ah, se essas pobres almas conhecessem o verdadeiro líquido salvador! ”, pensou Lúcio, sedento do rubro néctar. Peles de todas as cores e aromas o tentavam em delirantes promessas, mas nenhuma se igualava ao belo a macio colo negro que aprendera a amar. Precisava Dela e seguia seu rastro, sorvendo fiapos do cheiro inconfundível que inebriava.
Adentrou pela parte mais sombria e triste da redondeza, onde prostitutas serviam seu corpo, mas raramente sua essência. As paredes dos casarões recendiam a suor, álcool, sexo e lágrimas, unindo em um só local todo o desespero e prazer de uma sociedade doente. Vendo aqueles seres em meio a imundície, dispostos a tudo para alguns minutos de êxtase proporcionados por uma transa ou gramas de pó, Lúcio percebeu que os humanos, e não ele, eram os verdadeiros amaldiçoados. Sentiu uma raiva imensa ao pensar que Ela dividia o mesmo espaço com essas criaturas nojentas, perdendo a cada noite seu brilho.
Chegou à porta de um casarão de cor indefinida. Há meses Lúcio fazia o mesmo percurso, entregando-se ao simples prazer de ter a pele Dela junto a sua, beijar e não morder, cuidar e não matar. Ele pouco falava, mas de alguma forma Ela sabia seu segredo. Eram duas almas destinadas ao desespero, julgadas pela luz do dia e reféns da noite. Ambos precisavam de salvação, mas não podiam salvar um ao outro.
Ela estava praticamente inerte no leito. Respirava rápida e ruidosamente, exibindo quase com orgulho sua agonia. O suor, olheiras, cabelo desalinhado e célere emagrecimento não foram suficientes para tirar sua beleza. Seu pulso continuava forte e rítmico, como que desafiando Lúcio.
– Estou morrendo – Ela disse com dificuldade – E minha maior tristeza é saber que sua solidão será ainda maior sem mim. Nunca conheci alguém tão solitário quanto você. Como vou partir tranquila? Por que me deixa morrer assim? Não percebe que sua vida será ainda mais miserável sem minha presença?
– Dentre tantos poderes você me pede minha maior fraqueza. Como todos os humanos você tem a benção da ignorância, mas anseia por desgraçar-se pelo medo da morte. Não sou cruel o bastante para lhe passar minha maldição. Vejo a história em ciclos intermináveis e repetitivos, sem poder participar dela. Sou obrigado a suportar o peso dos séculos sem a esperança de um paraíso após a morte. Nada é pior do que isto.
Ditas em voz altas as palavras tornaram-se poderosas e Lúcio teve certeza que só haveria uma escolha possível. Se dirigiu para um móvel próximo onde havia uma garrafa de vinho barato. O líquido de péssima qualidade apenas reacendeu seu desejo por algo mais nobre. Ela tossia violentamente enquanto ele a abraçava e ao mesmo tempo penetrava sua carne em busca de sangue. Sim, era um vampiro, e seu instinto ordenava que tirasse vidas, nunca as salvasse. Sem piedade, honra ou arrependimento. Mas afinal não eram assim também os homens? Só o prazer importa, ainda que as custas da dor alheia. Não havia espaço para o amor.
A vida estava próxima do fim quando Ela sussurrou:
– Você entendeu. Obrigada.
Lúcio beijou seu rosto frio e foi até a única janela do quarto. Escancarou-a e retornou ao leito. Abraçados e unidos pela morte que vinha eles viram os raios da primeira, e última, manhã que passaram juntos. 

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3 comentários

  1. Respostas
    1. A verdadeira imortalidade.
      Obrigada pela visita, moço;)

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  2. Texto muito bem escrito e cheio de significado.
    Parabéns!
    Obrigada pela visita feita ao blog.
    Desejo uma ótima semana.
    “Todo o nosso saber se reduz a isto: renunciar à nossa existência para podermos existir.” (Johann Goethe)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
    TOP Comentarista de NOVEMBRO com 3 livros + BRINDES e 3 ganhadores, participem!

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